Me assiste curioso como um cientista que descobre novo fenômeno no que se acreditava saber tudo. Você vem faminto querendo entender esse novo mundo. Mas eu sou toda mistério e me entrego aos pouquinhos. Ou ao menos é o que parece. Confundo você só pra lhe garantir que a boba não era eu. Quando lhe tenho na minha rede, solto. Perdi o interesse. Quem era mesmo o experimento?

 

rua

Manda-me sol. Me irradia, me clareia. Eu cansei de tatear na escuridão. Eu não quero mais me trancar. Quero me cegar de tanta luz. De tanta verdade. Quero enfrentar lá fora, mesmo que a porta aberta traga tempestades. Meu objetivo não é encontrar vantagens, mas aventura. Eu quero saborear a vida. A boa e a ruim. Tudo. Quero sair para descobrir muito mais do que eu.

 

isso é estilo autoajuda, saia correndo – eu avisei!

Ela é feliz? Eu me perguntava. Já foi, eu acho. E hoje? Hoje ela tateia entre o que é confortável – afinal ela deve tá chegando nos 50 e não tem mais graça dormir em qualquer barraca como hippie – e o que ainda preserva a identidade dela. Ela não tem um par, como a maioria da sua idade, que se identifica no outro. Nem tem família direito para se espelhar em quem foi ou em quem está ficando uma parte sua. Ela achou que podia viver de sonhos. E vejo nos olhos quase cansados que ela continua tentando acreditar. Mas ela também deixa escapar através de fotografias pretensamente felizes que essa vida burguesa monótona com pequenas alegrias pontuais não é suficiente. Ela tentou escolher estar nos dois caminhos. O alternativo e viva la vida loca e o tradicional e quero casar de grinalda. O matrimônio não deu certo, mas e o resto? Será que ela tá satisfeita? Conformada? Será que ela se sente injustiçada? Ou sabe que lá no fundo ela não atingiu todo potencial que podia? Será que ela dorme bem?

Eu me pergunto dela e me vejo nela, mas não quero me ver ou quero me convencer que o caminho não é tão ruim. É uma tia afastada, estilo cool, que foi meio hippie, namorou fotógrafo, foi meio artista e gostava da mesma música que eu. Era uma alternativa. Mas agora eu tomo minhas decisões e ela não me parece idealizada mais. E eu vejo gente de carne e osso. E não é tão glamouroso como minha mente juvenil fantasiava. É meio real. Por mais que se cresça, uma hora  a gente sempre acha que vai encontrar nas nossas vidas coisas “mágicas”, momentos “mágicos”, que vão dar sentido a toda bosta que se tem passado. Eu já passei por alguns desses instantes e já passei por outros que poderiam ser muito melhores, mas eu não dei devida importância. Aliás, eu acho que é justamente aí que a vida acontece. No significado que tu dá pra ela. Pode ser uma porcariazinha que te ocorreu, mas se você der uma dimensão única, se você não menosprezar o que lhe acontece e der uma narrativa que fortaleça e não diminua a sua vida, você vai ser feliz. Ou pelo menos vai pensar que é. Tem diferença?

 

Quero congelar a minha raiva. Pra você ver amanhã quando acorde meu estado barulhento que você causou. Me seguro na raiva, não quero deixar ela ir embora, pra que quando você me veja você se arrependa. Não mexa comigo. Eu quero te provar, por uma reação extrema, que você não pode ter reações extremas comigo. E isso não faz o menor sentido. Eu acho que to me tornando tu. Droga, minha raiva foi trocada um pouco por dúvida agora. Eu não quero ser você. Você é inseguro, se agarra em qualquer um que lhe mostre alguma perspectiva de fidelidade. Você se apavora da solidão, mas foge dos outros. E de si. Meu deus. Nós somos iguais.

Miseráveis

Você sabe que não é saudável. Que não é assim que isso deveria ser enfrentado. Mas você persiste no erro. Quer ver sangrar. Até estancar sozinho. Quer deixar ferida. É autodestrutivo porque você sabe que é culpado. E merece ser punido. E é por isso que você fuma, bebe, se droga. Não é diversão. É autoflagelo proposital. Mas o pior é quando a sua própria dor não basta. E a mágoa se espalha no ar, sai pelas suas entranhas e você como bicho caçador vai minando todos a seu redor como presas de sua raiva interna. Você quer extrapolar. E vê no causar sofrimento alheio uma distração para sua angústia. Você é um miserável. Você se reconhece em mim. Você sou eu. E eu sou um pouco de todos nós.

 

tenho medo. medo de não ser suficiente. de ser menos do que pretendia ser. de decepcionar a mim mesma. medo de gastar a vida à toa. de não mudar o que gostaria. de fracassar. tenho medo. de dormir todas as noites sozinha. de não ter com quem jantar. de não conseguir me entregar. medo de amar. e de perdoar. tenho medo de não conseguir emprego. ou conseguir um que apenas pague minhas contas. tenho medo de ter contas. responsabilidades. tenho medo de crescer, mãe.

não diga que você não se reconhece em mim. você se vê no meu olho quando nenhuma de nós tem coragem de se enxergar. você conhece esse meu lado ruim, que também é seu. e aparece até uma certa empatia negada pela moral que nós colocamos na cabeça, mas que nossos instintos cismam em não obedecer. você odeia saber direitinho quando eu vou fazer merda. você nega o espelho que vê em mim do seu lado cruel. e finge estar chocada. você sabe o que nós duas somos capazes. a diferença é que eu sou um pouco menos covarde. ou mais louca.

 

“we are young, young free…”, pra que a pressa, meu bem? nós temos a vida toda pela frente e o que importa é aproveitar o caminho. sou um bolo de clichês remodelados. mas e daí? vai com calma. você não tem que provar nada, a época de parecer já era. hoje nós somos. talvez menos do que nossa presunção de glória rápida da juventude rebelde igual de sempre achava que nós seríamos hoje. talvez mais do que nossa passividade queria que fôssemos. seja como for, hoje somos. intransitivamente, somos. eu sou eu e você é você. sem eu tentar ficar parecendo você ou querendo mostrar pra eles que podemos ser melhores que todos eles juntos. nos recolhemos na nossa pequenez e aprendemos que é justo nessas pequenas alegrias e detalhes que está o rico da vida. porque a vida, ao contrário do que nossa cabeça adolescente pensava, não é feita de grandes reviravoltas ou dramas ou superações. a vida é aquele cachorro vira-lata latindo na madrugada, é se admirar com a simpatia inesperada do vendedor de cigarro, é alguém correndo na redenção, é limpar os pratos depois do jantar. a vida não é poesia. mas também não é desespero. pare de tentar aprisionar a sua vida em conceitos extremos. e se você quer mesmo simplificar, entenda, de uma vez por todas, que você nunca vai entender toda essa complexidade.

 

 

Eu sou uma mistura de tudo. E eu também não sou nada disso. Eu confundo todo mundo. E não me explico pra ninguém. Nem pra mim.

você

E você muda de nome, de idade, de cara.

Você nunca é o mesmo, mas você também se repete

Porque um só você ou você uma só vez

não é suficiente

 

Porque eu incompleta, na minha insana busca pelo melhor,

Cato em todos vocês um pedaço para me preencher.

E não me decido entre um amor inteiro e cheio faltas

ou vários vazios cheios de possibilidade.

 

E me delicio e me arraso e te enlouqueço e te perco e você vai. E eu fico.

 

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