Ela é feliz? Eu me perguntava. Já foi, eu acho. E hoje? Hoje ela tateia entre o que é confortável – afinal ela deve tá chegando nos 50 e não tem mais graça dormir em qualquer barraca como hippie – e o que ainda preserva a identidade dela. Ela não tem um par, como a maioria da sua idade, que se identifica no outro. Nem tem família direito para se espelhar em quem foi ou em quem está ficando uma parte sua. Ela achou que podia viver de sonhos. E vejo nos olhos quase cansados que ela continua tentando acreditar. Mas ela também deixa escapar através de fotografias pretensamente felizes que essa vida burguesa monótona com pequenas alegrias pontuais não é suficiente. Ela tentou escolher estar nos dois caminhos. O alternativo e viva la vida loca e o tradicional e quero casar de grinalda. O matrimônio não deu certo, mas e o resto? Será que ela tá satisfeita? Conformada? Será que ela se sente injustiçada? Ou sabe que lá no fundo ela não atingiu todo potencial que podia? Será que ela dorme bem?
Eu me pergunto dela e me vejo nela, mas não quero me ver ou quero me convencer que o caminho não é tão ruim. É uma tia afastada, estilo cool, que foi meio hippie, namorou fotógrafo, foi meio artista e gostava da mesma música que eu. Era uma alternativa. Mas agora eu tomo minhas decisões e ela não me parece idealizada mais. E eu vejo gente de carne e osso. E não é tão glamouroso como minha mente juvenil fantasiava. É meio real. Por mais que se cresça, uma hora a gente sempre acha que vai encontrar nas nossas vidas coisas “mágicas”, momentos “mágicos”, que vão dar sentido a toda bosta que se tem passado. Eu já passei por alguns desses instantes e já passei por outros que poderiam ser muito melhores, mas eu não dei devida importância. Aliás, eu acho que é justamente aí que a vida acontece. No significado que tu dá pra ela. Pode ser uma porcariazinha que te ocorreu, mas se você der uma dimensão única, se você não menosprezar o que lhe acontece e der uma narrativa que fortaleça e não diminua a sua vida, você vai ser feliz. Ou pelo menos vai pensar que é. Tem diferença?